Derrota nas penalidades não apaga temporada consistente do Flamengo, marcada por títulos, competitividade e amadurecimento do trabalho de Filipe Luís
O Flamengo não conquistou o bicampeonato mundial, mas saiu da Copa Intercontinental com a certeza de que está, hoje, em um patamar competitivo raro para clubes sul-americanos. A derrota para o Paris Saint-Germain, nos pênaltis, após empate por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, no Catar, encerrou o torneio com frustração imediata, porém com saldo amplamente positivo no recorte da temporada e do trabalho comandado por Filipe Luís.
A decisão escancarou dois sentimentos coexistentes: a dor do “quase” e o orgulho de ter encarado, de igual para igual em muitos momentos, uma das equipes mais poderosas do futebol europeu. O Flamengo resistiu ao domínio inicial do PSG, corrigiu problemas ao longo do jogo, encontrou o empate e teve chances reais de vencer antes das penalidades. No fim, pagou o preço por falhas individuais — especialmente nas cobranças —, mas deixou o campo de cabeça erguida.

Enfrentamento europeu confirma evolução rubro-negra
A final da Copa Intercontinental não pode ser analisada de forma isolada. Ela fecha um ciclo de confrontos internacionais que reforçam a evolução do Flamengo sob o comando de Filipe Luís. Ao longo do ano, o Rubro-Negro enfrentou Chelsea, Bayern de Munique e PSG — três potências do futebol europeu — e saiu desses duelos com uma vitória, um empate e uma derrota.
Contra o PSG, o roteiro começou adverso. A pressão alta e a intensidade francesa impediram o rubro-negro de impor seu DNA habitual de posse e controle. O time brasileiro teve dificuldades na saída curta, sofreu com erros técnicos e viu Rossi viver uma noite insegura, culminando na falha que originou o gol de Kvaratskhelia ainda no primeiro tempo.
Apesar disso, o Flamengo não se desorganizou por completo. Ajustou o posicionamento, passou a competir mais fisicamente, reduziu espaços e, na segunda etapa, equilibrou o confronto. O empate veio em pênalti convertido por Jorginho, após jogada construída com pressão na saída de bola adversária — um retrato da capacidade de adaptação da equipe.

Ajustes de Filipe Luís e o jogo no limite
O segundo tempo e a prorrogação evidenciaram o amadurecimento do trabalho de Filipe Luís. O treinador abandonou a ideia inicial, reformulou o meio-campo, abriu mão de um camisa 10 de ofício e reorganizou o time para sobreviver ao contexto imposto pelo PSG. O Flamengo não teve o controle da bola, mas passou a controlar melhor os espaços.
As substituições deram mais equilíbrio defensivo e permitiram que o Rubro-Negro criasse oportunidades reais de gol. Houve momentos em que o PSG demonstrou desconforto, especialmente após o empate, e o Flamengo esteve próximo de uma virada histórica. A estratégia funcionou até o limite físico e emocional da equipe.
O custo dessas mudanças apareceu na disputa por pênaltis. Sem alguns de seus principais cobradores em campo, o Flamengo desperdiçou quatro cobranças, todas defendidas por Safonov. A derrota nas penalidades selou o 14º título mundial consecutivo de clubes europeus, mas também marcou a primeira vez, nesse período, que um sul-americano levou uma decisão ao limite máximo.

O primeiro luto de Filipe Luís e o peso da derrota
Para Filipe Luís, a final representou um marco pessoal. Foi a primeira decisão perdida desde o início de sua carreira como treinador profissional. O técnico, que sempre destacou a intensidade com que vive o futebol, classificou o sentimento como “luto”, mesmo reconhecendo o valor da temporada histórica do Flamengo, campeão brasileiro e da Libertadores.
À beira do campo, Filipe mostrou envolvimento constante, orientando jogadores, ajustando posicionamentos e incentivando a equipe mesmo nos momentos de maior dificuldade. Após o apito final, o abatimento foi evidente, mas veio acompanhado de aplausos da imprensa presente no estádio Ahmad bin Ali — um reconhecimento simbólico ao trabalho desenvolvido.
A imagem do treinador parado no gramado, mãos na cintura e olhar distante, sintetizou a mistura de frustração e reflexão. O futuro segue aberto, mas a trajetória recente indica um Flamengo cada vez mais preparado para competir em alto nível internacional.
A derrota nos pênaltis não apaga erros, nem elimina a dor rubro-negra. No entanto, ela reforça uma constatação relevante: o Flamengo de Filipe Luís é hoje o clube sul-americano que melhor soube desafiar a soberania europeia. E, quando essa sequência histórica cair, poucos parecem tão capacitados para liderar essa ruptura quanto o time do Flamengo que deixou o Catar sem taça, mas com prestígio intacto.

